Eu passo todos esses dias pensando e escrevendo e vou percebendo que a cada instante estou ficando mais maduro. Estou notando que já não rio tanto quanto antes, as piadas precisam de um pouco mais de inteligência ou de inteligência nenhuma para me motivarem uma gargalhada. Na verdade, ando com a cara meio fechada porque não tenho passado bem, tenho sentido dores, inclusive na consciência. Tenho uma frase linda poética, que ainda não consegui dizer a ninguém, acho que por falta de coragem. Mas e verdade é que quem me olha, olha um homem morto.
Nunca quis ser igual a ninguém, pelo contrário, sou arrogante demais pra isso. Sou um cara chato e demasiadamente orgulhoso para querer me parecer com alguém. Gosto de beber e bebo bastante. Isso está me matando. Quem escreve é um homem morto. Não publiquei nenhum livro até agora, estou na estrada já há alguns anos. Nunca planejei caminhar na estrada de Bukowski que bebia, bebia e gostava. Não quero ser como ele. Bebo também e também porque gosto, mas meu fígado não é o fígado de Bukowski, o meu fígado é um figadozinho de merda que não agüentou o tranco e agora quer me levar dessa pra outra.
Eu tomo uísque e então olho para o copo e penso. Quem bebe é um homem morto. Gosto de beber e escrever. Escrevo no dia seguinte porque meu fígado anda tão debilitado que não consigo mais organizar as idéias quando estou embriagado. Isso já não me agrada mais. Não tenho medo da morte, porém, ainda prefiro viver. Gostaria de ver meu trabalho publicado em algo mais que jornais e internet. Quem escreve é um homem morto.
Mas sou muito na minha. É o meu jeito, sou assim. Não vivo a sombra de ninguém, tenho meus próprios princípios e minhas idéias são únicas, são minhas. Muita gente não gosta do que escrevo. Ótimo, se todos gostassem não teria graça nenhuma. Sou assim, um homem que bebe, que fala, que pensa. Um homem que gosta da noite e da solidão. Sou único. Indivíduo. Não me assemelho a ninguém. Quem gosta de mim ou do meu trabalho, gosta de algo único. Não sou sombra e nem seguidor. Não sou devoto e nem tiete. Não sou fã de homens. Sou um homem como todos. Todos são homens como eu. Bebo, escrevo, ando e me perco, mas não quero ser Mário Bortolotto. Enquanto escrevo meu fígado dói o uísque de ontem. Quem escreve é um homem morto.
Silvio Côrtes